Solenidade de São José Operário, A

“Eis o servo fiel e prudente a quem o Senhor confiou a sua casa” (Lc 12,42).

A festa de São José toca cordas muito sensíveis do coração humano. Por outro lado, contém um aspecto de mistério, que, à primeira vista, parece ser um estar por fora, porém, quando se olha bem, se revela ser um estar por dentro. Mas, para que esta mudança de ótica se realize, deve acontecer primeiro a fé, que é a maneira adequada para encontrar um mistério.

José, chefe da família de Nazaré, humilde, justo, modelo dos trabalhadores e patrono universal da Igreja, cumpriu com fidelidade a vontade divina. Foi servo atencioso no momento de anunciação e no cuidado com Maria e com o menino Jesus. Confiando em sua poderosa intercessão, rezemos em favor de nossas famílias e pela paz no mundo!

Prezados irmãos,

O nome José, em hebraico, significa “Deus cumula de bens”. Pouco conhecemos sobre a vida dele. Unicamente as rápidas referências transmitidas pelos evangelhos, é o suficiente para destacar seu papel primordial na história da salvação.

José é o elo entre o Antigo e o Novo Testamento. É o último dos patriarcas. Para destacar este caráter especial de José, o evangelho de São Mateus se apraz em atribuir-lhe “sonhos”, a exemplo dos grandes patriarcas, fundadores do povo judeu. A fuga de José com sua família para o Egito repete, de certa forma, a viagem do patriarca José, para que nele e em seu filho Jesus se cumprisse o novo Êxodo. Ainda em São Mateus, vemos como foi dramático para esse grande homem de Deus acolher, misteriosa, dócil e obedientemente, a mais suprema das escolhas: ser Pai Adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Messias, o Salvador do mundo. “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa” (Mateus 1,24).

Diz-se que casou-se com Maria aos 30 anos de idade. Diz-se também que morreu aos 60 anos de idade, antes do início da vida pública de seu Filho Jesus Cristo. Sabemos que ele era um carpinteiro, um trabalhador, tanto que, em Nazaré, perguntaram em relação a Jesus: “Não é este o filho do carpinteiro?”. Ele não era rico, tanto que, quando ele levou Jesus ao Templo para ser circuncidado, e Maria para ser purificada, ele ofereceu o sacrifício de um par de rolas ou dois pombinhos, permitido apenas àqueles que não tinham condições de comprar um cordeiro.

A missão de José na história da salvação consistiu em dar a Jesus um nome, fazê-lo descendente da linhagem de Davi, como era necessário para cumprir as promessas. Sua pessoa fica na penumbra, mas o Evangelho nos indica as fontes de sua grandeza interior: era um “homem justo”, de uma fé profunda, inteiramente disponível à vontade de Deus, alguém que “esperou contra toda esperança”.

Sua figura quase desapareceu nos primeiros séculos do cristianismo, para que se firmasse melhor a origem divina de Jesus. Mas já na Idade Média, São Bernardo, Santo Alberto Magno e São Tomás de Aquino, lhe dedicaram tratados cheios de devoção e entusiasmo. Desde então, seu culto não tem feito senão crescer continuamente.

O Papa Pio IX declarou-o Patrono Universal da Igreja. O Papa Leão XIII propunha-o como advogado dos lares cristão. Em nossos dias foi declarado modelo dos operários. Além de “homem justo”, José foi cuidadoso guardião de Jesus, esposo atento e fiel, que exerceu a autoridade familiar numa constante atitude de serviço.

Caros irmãos,

A Primeira Leitura – 2Sm 7,4-5a.12a.16 – apresenta a profecia de Natã. Davi quer construir uma casa para Deus, mas este não precisa de casa. Sempre morou numa tenda, perto de seu povo migrante. Mas ele construirá uma casa para Davi, isto é, uma dinastia. Esta profecia concerne em primeiro lugar a Salomão, mas atinge sua plenitude em Jesus, filho de José e de Maria, da casa de Davi. A profecia de Natã acena a Salomão, filho de David e construtor do templo. Mas as palavras: “Quando chegar o fim de teus dias e repousares com teus pais, então suscitarei, depois de ti, um filho teu e confirmarei a sua realeza” (v. 12), indicam uma longa descendência no trono de Judá. Esta descendência teve um fim histórico, recebendo força profética na alusão velada ao Messias, descendente de David. Ele reinará para sempre. Mas o seu reino não será deste mundo. Será um reino espiritual para salvação da humanidade. A tradição cristã sempre aplicou este texto a Jesus, Messias descendente de David, e indiretamente também a José, o último elo da genealogia davídica.

O Salmo Responsorial – cantamos – a aliança com Davi e sua dinastia para sempre: “Eis que a sua descendência durará eternamente”.

 

Prezados irmãos,

Na Segunda Leitura – Rm 4,13.16-18.22 – fala da fé de Abraão. São Paulo distingue no Antigo Testamento duas realidades: a Lei e a Promessa. A Promessa veio antes da Lei. A Promessa veio antes da Lei. Portanto, tem mais peso. Abraão viveu da promessa, pois a Lei ainda não era promulgada. A Lei é conjugada com a transgressão e a ira de Deus, a Promessa com a fé e a graça. Abraão acreditou na Promessa contra toda a probabilidade, apoiado tão-somente no poder e na graça de Deus, que do nada pode chamar algo à vida. Com tal fé venera-se Deus como Deus.

São Paulo evoca a figura de Abraão, pai dos crentes, que reconheceu a sua indigência e se apoiou, isto é, “acreditou” em Deus recebendo o “juízo de salvação”, a “justificação”. A sua indigência foi superada e pôde realizar a sua “tarefa existencial”, a sua “obra”, que naquelas circunstâncias consistia na sua paternidade para com Isaac. A liturgia aplica a São José o elogio de Paulo a Abraão. A fé do esposo de Maria, submetida a duras provas, manteve-se firme, fazendo dele “homem justo”, e pai adotivo de Jesus. A sua resposta de fé manteve-se durante toda a sua vida. Por isso, colaborou com disponibilidade e generosidade no projeto de salvação a que Deus o associou. Se Abraão é “tipo” do cristão, José também o é. Abraão sabia-se condenado à morte, pois não teria descendência. Mas acreditou e recebeu uma grande descendência da mão de Deus. José aceitou ser “pai” de Quem não era seu filho, mas Filho de Deus e de Maria, e colaborou na geração da humanidade nova, nascida da morte e da ressurreição de Cristo.

Caros irmãos,

No Evangelho – Mt 1,16.18-21.24a – que relata a gravidez de Maria. Trata-se da genealogia de Jesus, significando que ele é filho de Abraão e Filho de Davi. Termina, na linha paterna, em José, mas aí passa a mencionar Maria como progenitora de Jesus. Pois o Filho que Ela concebeu é obra de Deus, fruto do Espírito Santo. Realiza a promessa do “Emanuel”, “Deus conosco”. A este mistério, José dedica sua vida. A ele, como chefe de família, incumbe a tarefa de dar ao filho o nome que significa sua missão: Jesus, “Javé salva”.

Diante da constatação  da gravidez de Maria, José reage, primeiro, conforme a lógica: sente-se por fora e, prudentemente, tira a conclusão: decide deixar Maria livre, em segredo, para que ela não fique exposta a perseguição. Porém, exatamente esta “justiça” no seu tratamento da questão mostra que ele está profundamente envolvido. Quando o anjo lhe explica que o fruto do útero de Maria é obra de Deus, sua justiça produz a fé, que o faz assumir este mistério como seu. Está envolvido muito mais do que a mera paternidade física pode envolver.

Paternidade não é uma questão biológica, é uma questão de fé. Com este “slogan” se poderiam abordar diversos aspectos da mais candente atualidade. Filho, a gente tem não tanto gerando-o quanto assumindo-o, entregando-se a Deus como instrumento de seu projeto. Ou, em termos um tanto populares: filhos, a gente não os faz; recebe-os. Recebe-os como um dom de Deus, na fé, e, por isso, por não serem um produto exclusivamente nosso, nos dedicamos a eles mais ainda.

Um segundo ponto deve ser salientado na Solenidade de São José: a responsabilidade. São José aparece como um homem responsável, fiel e prudente, a quem Deus confiou seu Filho. Nós temos o costume de achar que responsabilidade só diz respeito ao que nós mesmos fazemos. Mas muito maior é a participação quando nos tornamos responsáveis por aquilo que não tem em nós sua origem. Neste caso, comungamos com uma outra fonte. Neste caso, a responsabilidade é realmente livre e escolhida, não imposta pela natureza. É o caso de São José.

O Filho de Deus não pertence aos seus pais, mas estes pertencem a Deus. Esta realidade vale também na vida da família cristã. Ser transmissor de vida biológica é fácil. Ser transmissor de um presente de Deus à humanidade, como foi Jesus e como deveriam ser também nossos filhos, é difícil. Nós não temos a última palavra. Mas quem acredita acha bom isso, pois Deus é maior do que nós.

Um terceiro ponto da figura de São José: a fidelidade de Deus na realização de sua Promessa, no dom da vida de Jesus, desde sua concepção no seio virginal de Maria. A fidelidade de Deus encontra, em José, a fé do homem, como a encontrou já em Abraão e Davi. Fé e fidelidade têm a mesma raiz, complementam-se. Não posso acreditar em quem não é fiel. Por outro lado, a fidelidade de Deus é a razão de minha fé. Por esta fé, José reconheceu o que aconteceu em Maria como realização da fidelidade de Deus e não como um desastre. A fé é o sentido que nos faz descobrir a obra da fidelidade de Deus.

Caros irmãos,

Como ser, ao mesmo tempo, Esposo daquela que era, primeiramente, esposa do Espírito Santo e pai daquele que o enviou e o destinou para chamá-lo de Filho? Sem dúvida, José, como ninguém, por causa de seu grau de perfeição, percebia sua limitação humana e não se angustiava. Intuía que seu testemunho de tamanho equilíbrio seria capaz de influenciar homens e mulheres do mundo inteiro que, como nós, também querem que o Céu já comece entre nós. Como sustentar a saudade quando, cumprida a missão, deveria retornar ao Pai e aguardar a realização da promessa que os uniria novamente no Céu? A saudade era amenizada pela certeza absoluta de que, num piscar de olhos, aquela Santa Casa estaria logo reunida novamente, onde ele continua em glória a desempenhar a sua missão divina.

Pois no Céu os méritos de São José alcançaram plenitude e, lá, ele continua a ser o chefe da Sagrada Família.

Prezados irmãos,

A Festa de São José nos convida à celebração do dom da família. O pai adotivo de Jesus tinha razões suficientes para seguir por outro caminho. O silêncio e a fé falaram alto. José soube ser flexível, a ponto de refazer sua decisão de abandonar Maria. A família é o espaço ideal para que a vida seja gestada e educada. Deus, ao enviar seu Filho ao mundo, não poderia ter escolhido outra opção: nascer em uma família humilde. A educação dada ao Menino inspira os pais de todos os tempos, que devem ficar atentos às surpresas da vida. Jesus não se perdeu no templo, apenas se ocupou de sua missão: ensinar e aprender. A admiração e a contemplação de Maria cresciam conforme o crescimento de Jesus. Com São José aprendemos que no silêncio e na fé, acolhemos os sinais de Deus!

Rezemos: Ó glorioso São José, que por Deus fostes escolhidos para cabeça e guarda da mais santa entre as famílias, dignai-vos do Céu ser também cabeça e guarda desta que aqui está prostrada diante de vós e pede que a recebais sob o manto do vosso patrocínio. Nós vos escolhemos para pai, protetor, conselheiro, guia e padroeiro e colocamos debaixo da vossa guarda especial a nossa alma, corpo e bens, quanto temos e somos, a vida e a morte. Olhai-nos, defendei-nos de todos os enganos de nossos inimigos visíveis e invisíveis. Assisti-nos em todos os tempos, em todas as necessidades, consolai-nos em todas as amarguras da vida, mas em especial, na agonia da morte, traga a nosso favor uma palavra do amável, do Redentor e da Virgem gloriosa, de quem fostes amantíssimo Esposo. Alcançai-nos deles aquelas bênçãos que conheceis serem necessárias ao nosso verdadeiro bem e eterna salvação. Numa palavra, possa esta família no número das que amais, e ela procurará, por meio de uma vida verdadeira cristã, não se tornar digna do vosso especial patrocínio. Assim seja.

 

Padre Wagner Augusto Portugal.

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